22/03/2019 às 08h20min - Atualizada em 22/03/2019 às 08h20min

Conversas necessárias: como falar com as crianças sobre morte e luto

MdeMulher

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Quando chegou da escola no dia do massacre cometido por dois jovens em uma escola de Suzano (SP), Erick, de 8 anos, estava assustado. “E se fosse na minha escola, mãe? Eu não quero que meus amigos morram! E se tivessem me matado, matado os meus amigos?”, disse para a mãe, a gerente de compras Ana Lúcia Scarambini. “Na hora, só consegui dizer que todo mundo morre e que rezo todos os dias para que nada de ruim aconteça com ele. Eu mesma estava em choque com a notícia e não estava preparada para ter essa conversa”, lembra ela.

Ana Lúcia não foi a única a ser questionada sobre a morte e o luto naquele dia. A dentista Daniela Chaves teve que repassar muitas das perguntas que sua filha de 6 anos, Alice, havia feito no fim do ano passado, quando a avó morreu, e revelar que sim, crianças morrem também. “Ela quis saber se as crianças mortas tinham ido para o mesmo lugar que a vovó, se tem céu diferente para crianças e velhinhos. Também questionou se a gente ficaria de luto pelos mortos da escola de Suzano. Me partiu o coração. Respondi as perguntas dela, nos abraçamos muito”, conta.

Falar sobre assuntos tabu realmente é uma tarefa difícil para mães e pais, mas com dicas de especialistas fica mais tranquilo. Conversamos com a psicopedagoga Quezia Bombonatto (membro do Conselho Vitalício da ABPp – Associação Brasileira de Psicopedagogia), com a pedagoga especializada em educação infantil Julia Milani  e com a terapeuta familiar Anne Lise Scappaticci para saber qual é a melhor abordagem sobre o assunto na primeira infância, na infância e no começo da adolescência. Abra esse canal de comunicação com seus pequenos.

Como falar de morte e luto com crianças de até 6 anos de idade
Não existe uma idade exata para a primeira conversa, pois cada criança amadurece em seu tempo. A dica de ouro aqui é: espere que ela toque no assunto – tentar forçá-lo pode agredir sua falta de maturidade e criar traumas tanto sobre morte e luto quanto sobre o conversar com adultos a respeito de questões difíceis.

O ideal é responder as perguntas que ela fizer de forma objetiva, ou seja, falar apenas sobre o que ela perguntou. Não precisa dar detalhes da morte, especialmente quando há sofrimento envolvido – “a vovó morreu de câncer”, “as crianças da escola levaram tiros e morreram na hora” –, pois a criança não tem estrutura suficiente para assimilar isso e ficará assustada. Outra fala a ser evitada é que a pessoa “descansou”: quando a criança vir alguém cochilando, vai achar que se trata de alguém morto. Sim, elas são muito literais nessa faixa etária.

O luto pode ser explicado de forma simples: é suficiente dizer que o que se guarda são as boas lembranças da pessoa morta, mesmo ela não estando mais aqui fisicamente, e que é assim que normalmente se lida com a ausência de quem já morreu. E que tudo bem chorar de saudade de vez em quando, desde que se lembre dos bons momentos também.

As perguntas começam a ficar mais profundas. Nesse ponto da vida, as crianças já aprenderam na escola pelo menos que as pessoas nascem, crescem e morrem, então o fato de que a vida acaba já não é uma surpresa. É possível que seu filho ou sua filha queira saber de se morre. Nada de listar todas as doenças e os acidentes conhecidos pela humanidade: explique dando exemplos de parentes e amigos e também de famosos que já morreram.

A questão do luto também ganha outra dimensão: nesta fase, é comum a criança não perguntar como lidar com o pós-morte de alguém, mas sim observar como os pais reagem e imitar. Não há problema nenhum em chorar de saudade de alguém querido ou de emoção em casos como o massacre de Suzano – é até bom ela ver que adultos também podem ser frágeis.

Outra atitude esperada é que, passado um tempo, a criança queira retomar o assunto da morte de alguém (ela não tem muitas preocupações no dia a dia, é normal que remoa um pouco o que aconteceu). Converse normalmente, responda as novas perguntas ou repita as respostas das antigas, caso elas sejam feitas novamente.

Chegou a adolescência! E, quando já há um canal de comunicação entre mães, pais e filhos aberto, existe um sentimento de parceria. A essa altura da vida, eles já sabem que as pessoas morrem e não voltam, que a saudade pode doer e que chorar faz parte.

A sugestão das especialistas é que mães e pais conversem de igual para igual aqui: vale dizer que está sofrendo, que a ausência é sentida. O adolescente aproveita para assimilar os comportamentos dos adultos e checar, dele para ele mesmo, se seu comportamento parece maduro perto dos mais velhos.

O luto já é uma questão bem individual: um adolescente externa à sua própria maneira os sentimentos. Apenas fique atenta se houver uma reclusão ou um isolamento social muito grande depois da morte de alguém querido ou de vítimas de crimes; se for este o caso, a ajuda de uma psicóloga é muito bem-vinda para trabalhar tantas emoções positivamente.

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